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terça-feira, 17 de maio de 2011

O tipo que vivia do RSI e que fazia biscates por fora

"Oh amigo! Oh amigo!...". Um indivíduo que eu não conhecia atravessava calmamente o estacionamento acenando na minha direcção. Percebendo que falava comigo, carreguei o último saco de compras no carro e esperei que o dito indivíduo chegasse junto a mim.

Na sua abordagem, deu logo a entender que era um sujeito sem rodeios e que tinha mais que fazer: -"Olhe, eu vou directo ao assunto para não perdermos tempo. Eu moro em Castelo Novo, sabe onde é?".

-"Sim...", respondi eu com algumas reservas.

-"Então é assim: eu moro sozinho, tenho uma casa pequena que só tem um radiozinho e como uma sopita que todos os dias tenho de ferver para não azedar, está a ver?"

-"Sim...", respondi novamente, embora achando que a abordagem que não estava a ser tão directa quanto havia sido prometido. Ainda para mais, sabia por experiência própria, que o processo normal em situações análogas passava geralmente pelo simples pedir de "uns trocos" ou de "umas moeditas", nunca havendo lugar para a exposição da realidade socio-económica do indivíduo. Os únicos que permitem ocasionalmente um lamiré sobre esse aspecto particular das suas vidas são geralmente os cidadãos de origem romena mas fazem-no por escrito com recurso a folhas A4 plastificadas, que apresentam aos transeuntes que vão abordando.

Seja como for, o indivíduo depressa interrompeu as minhas reflexões:

-"Eu governo-me com o Rendimento Mínimo e de vez em quando faço uns biscates também. Pronto, eu sei que não devia dizer isto, mas é a realidade."

Para logo de seguida acrescentar:

-"Pronto, a situação é que há ali uma aparelhagem na Worten que custa 100 euros. A ideia era, você vinha lá comigo, preenchia o cartão Worten e depois combinávamos, por exemplo uma vez por mês, para nos encontrarmos ou você passava lá em casa - se quiser pode ir comigo ver onde é que moro - e eu ia-lhe dando o dinheiro aos poucos. Pode ser?"

Mal terminou a frase, tive de morder o lábio para reprimir uma gargalhada que ameaçava soltar-se. Juro que não foi fácil. Aqui estava eu, perante um indivíduo que vivia sustentado pelo RSI, fazendo também biscates por fora, e que, apesar de viver numa situação financeira precária, tinha decidido endividar-se, ao invés de procurar poupar, para usufruir de um bem que não lhe era de forma alguma essencial. Um verdadeiro estandarte nacional em forma humana, portanto.

Retorqui-lhe apenas com um cordial "Oh amigo, você aqui não se safa. Desejo-lhe boa sorte." e despedi-me dele com duas palmadinhas nas costas.

Já dentro do carro, olhei na direcção de outro que se encontrava estacionado na fila da frente. No seu interior, uma mulher falava ao telemóvel ao mesmo tempo que vigiava com alguma inquietação o indivíduo que, encostado ao carro do lado, olhava fixamente para ela, esperando que terminasse a chamada e saísse do carro, para lhe dar a conhecer a sua situação sócio-económica e para lhe pedir uma aparelhagem de 100 euros que estava na Worten.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Reticências e outros pontos


Isto começa a roçar o estúpido, porque o ridiculo já há muito está ultrapassado.

O país está no abismo, não há dinheiro, a nossa falta de produtividade é sobejamente conhecida lá fora, mas o Governo acha que é oportuno dar tolerancia de ponto. A Sexta-Feira Santa, lá está, já por si implica um fim de semana prolongado, a tutela, por sua vez, acha normal alarga-lo ainda mais, precisamente numa altura em que a troika está no nosso país a estudar os nossos podres.

Que impressionados que eles vão ficar.

Os próprios finlandeses ficarão surpreendidos com o sentido de esforço e responsabilidade do Governo Português.

Diz o ministro da presidência que é absolutamente normal, que é concedido todos os anos. Ridículo sr. ministro. Nesta conjuntura pedia-se-lhe que marcassem pela diferença, positiva.

Passos Coelho, esse grande poeta da banalidade, atira-se ao Governo já depois de concedida a tolerância. Já toda a gente sabia, mas o senhor prefere continuar a chorar sobre o leite derramado a agir em tempo efectivamente útil.

Conhecendo as reivindicações do país, de resto, não me surpreendia que se a tolerância não fosse concedida que os sindicatos não saltassem para frente das câmaras afirmando-se afrontados com tamanho desrespeito pelos trabalhadores - da função pública note-se, porque a grande maioria do sector privado está a sair do emprego por esta hora.

Ainda assim, a função pública é mais uma vez a grande privilegiada. Não trabalha hoje, mas receberá no dia certo. Têm mais garantias que qualquer outro sector (mais estabilidade no emprego, ADSE, regalias de diversas ordens) e são quem mais reclama, quem mais faz greve, quem aparentemente mais se revolta sem se aperceber das afrontas que não enfrenta.

Senhores da troika, não tenham contemplações. O país não tem emenda, o exemplo não vem de cima. Quando o chicote cair, que faça ferida e que sare lentamente, não poderemos mais viver com a síndrome de memória curta, há que mudar RADICALMENTE de uma vez por todas.

Já os romanos diziam que aqui neste canto havia um país que nem se governava nem se deixava governar!

domingo, 6 de março de 2011

Homens da Luta vencem Festival da Canção




O juri não gostou. O povo votou, e o povo revê-se neles. Vamos lá Homens da Luta, "pá frente é que é caminho!". Já vimos prestações verdadeiramente pobres e classificações humilhantes para Portugal, por uma vez que seja uma música que eleve a voz do Povo!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

E a despesa subiu...



Ora neste fim-de-semana o nosso querido governo tentou impingir os mercados com uma propaganda de markting sobre os seus feitos de decida de cerca de 359 Milhões no défice de Portugal para o mês de Janeiro.

Ontem no entanto os juros da dívida pública voltaram a subir e inocentemente o governo diz que não percebe como.

Ontem também, descobriu-se que afinal, apesar de termos reduzido o défice, essa redução deve-se única e exclusivamente à colecta de impostos e de menos despesa com ordenados, a despesa normal do estado aumentou 0,9% em relação ao mesmo mês do ano passado.

Ou seja, os mercados que não andam a dormir como muitos portugueses, perceberam que o nosso governo continua desgovernado, que todos os nossos sacrifícios continuam a ser inúteis pois para atingir o défice previsto o estado já deveria ter reduzido na sua despesa cerca de 4% e em vez disso aumenta-a.

Se eles pensam que enganam os mercados com falinhas mansas como fazem ao povo Português... estão completamente enganados...

Que venha rápido a cimeira europeia para podermos ser ajudados finalmente como deve de ser...

Já agora, quando todos aclamam por uma redução da despesa do estado, continuam rumores que o TGV vai ser renegociado para o próximo mês.........